Saber dizer "não"
- Tonne de Andrade
- 27 de ago. de 2018
- 3 min de leitura
Ter baixa auto-estima é uma causa de sofrimento muito grande, por vários motivos, entre eles surge a questão de não se achar digna(o) de ser amada(o), o que afeta a capacidade de desenvolver relacionamentos amorosos, e mesmo amizades. Mas tem um aspecto que creio que precede esse: a sensação de estar sempre errado, de nunca fazer nada certo, e portanto, de sempre ter que fazer as coisas e ser do jeito como os outros são ou querem que você seja. Afinal, se tem algo de errado comigo, ou se não sei tomar boas decisões por mim mesma(o), é melhor deixar que outra pessoa defina ou decida como eu devo ser, certo?
Não. Definitivamente não.
A sociedade nos impõe muita coisa, na verdade, quase tudo, desde que nascemos: nasceu menina, vai usar brincos e cor-de-rosa, nasceu menino, vai gostar de futebol e ser garanhão. Crescemos com as expectativas que colocam sobre nossos ombros: nossos pais, família, e aqueles que nem sempre percebemos, nossos amigos. Na escola, na faculdade, no ambiente de trabalho, seguimos comportamentos, padrões, regras, que muitas vezes são ditados pelo chamado costume, ou seja, fazemos aquilo que a maioria faz.
O medo do isolamento social nos compele a seguir aqueles, que a nosso ver, são socialmente bem aceitos. Usar o cabelo ou a roupa da moda, comer nos mesmos lugares que os colegas, fazer os mesmos tipos de passeios para lazer, aceitar sempre as propostas dos outros, ter os mesmos gostos musicais, os mesmos posicionamentos políticos, os mesmos anseios profissionais, para nunca ficar sozinha(o). Sempre querer agradar, como pré-requisito para ter amigas(os) e um relacionamento amoroso.
Se todo mundo bebe, eu bebo. Se todo mundo usa drogas, eu uso. Se meu namorado quer transar sem camisinha, eu aceito. E fazemos tudo isso porque temos medo de nos posicionar, destoar do conjunto, ser a(o) chata(o) do rolê. Temos medo de dizer o que pensamos, porque temos medo de ser diferentes da maioria, ou daquilo que a maioria aparenta ser. Com isso, deixamos de nos respeitar, deixamos de orientar nossa própria vida, deixamos de tomar nossas próprias decisões.
O medo de não sermos amados é tão grande que tomamos atitudes que rebaixam o nosso amor-próprio. E não se amar é o primeiro requisito para não ser plenamente amado(a). Para reverter isso é necessário aprender a dizer “não” sempre que necessário, sem medo de ser rejeitada(o), sem precisar apelar para grosseria, apenas aprender a se posicionar: esse é o jeito como me visto, esses são meus gostos pessoais, esses são os tipos de lazer que me agradam, essas são as atitudes que acho corretas, primeiramente, para mim. Talvez não estejam corretas para os outros, e não cabe a mim decidir ou impor minha vontade aos outros, mas cabe apenas a mim saber o que gosto e o que quero.
Tem uma característica das pessoas com baixa auto-estima: sua insegurança as leva a aguardar um(a) salvador(a), que pode ser um(a) amigo(a) ou relacionamento amoroso. Alguém que lhe defenda, se posicione por ela(e), que a(o) conheça tão bem que ela(e) não precisa dizer o que quer ou o que gosta. Ainda que esse tipo de relação às vezes se desenvolva com o tempo, a realidade é que as pessoas não leem pensamentos, não adivinham intenções, e na verdade, as pessoas não estão esperando ouvir um “não”.
Mas outra característica das pessoas com baixa auto-estima é o medo de magoar o outro. Se eu disser “não”, a outra pessoa vai ouvir “eu não te amo, eu não te respeito, eu não te quero, etc”. E como quem tem baixa auto-estima tende a colocar os sentimentos dos outros como mais relevantes que os seus, esse receio de magoar força a dizer “sim”.
Dizer “não” é um aprendizado que envolve às vezes magoar alguém, sob a vantagem de aprender a não se magoar, a não considerar que sempre outra pessoa pode decidir melhor do que você. Esse é o grande desafio da vida adulta: nossos pais não devem mais tomar as decisões por nós, e não podemos delegar essa tarefa a outras pessoas de nossa vida, amigos(as) ou namorados(as). Precisamos enfrentar o medo de sermos quem somos, o medo de nossas próprias ideias e ações, e aprender a dizer “sim” a nós mesmos.
Cidade do México, 27/08/2018