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O pecado da gula

  • Foto do escritor: Tonne de Andrade
    Tonne de Andrade
  • 18 de mar. de 2017
  • 5 min de leitura

Como historiadora sei que a história da alimentação humana não é de banquetes. Antes do fogo, quando nossos mais distantes ancestrais sequer eram Homo alguma-coisa, os bandos se alimentavam quase como os outros animais, muitas vezes de restos de caça deixados por outros bichos, melhores caçadores que nós pelas suas características físicas. Nossos antepassados no paleolítico muitas vezes se alimentaram de carne podre.

A luta pela caça forçava a migração constante, e as brigas entre bandos e tribos, e esses períodos da história da humanidade não à toa são chamados de barbárie e selvageria.

Entre 10 e 3 mil anos atrás, alguns povos, em alguns lugares do mundo, domesticaram animais. A agricultura, em maior ou menor escala surgiu em quase todas as sociedades, mas somente alguns povos desenvolveram agricultura em larga escala, com produção de excedentes. Mesmo nos lugares em que a natureza tinha animais que o ser humano pudesse domesticar, esse foi um longo processo. Possivelmente um dos primeiros animais domesticados sequer era usado para a alimentação humana, os cães, mas para ajudar na caça e para proteção, e curiosamente, para companhia. Imaginemos esses cães do passado, ainda quase lobos, vivendo em volta de grupos humanos, brigando por ossos com restos de carne, depois que os humanos comeram.

Se novos modos de produção em alguns lugares trouxeram novas técnicas e aumento da produção, chegando à agricultura extensiva, capaz de gerar excedentes a serem guardados e armazenados para os anos de safras ruins ou para serem comercializados, essa melhoria veio acompanhada do surgimento do Estado, da estratificação social, da separação do trabalho intelectual do trabalho manual, e da desigualdade social.

No Egito Antigo, na Mesopotâmia, na Grécia e em Roma, a alimentação do grande conjunto da população continuou muito ruim, mas pequenas quantidades de pessoas, a elite, a família do faraó, os sacerdotes, os senhores de escravos, os césares, passaram a ter possibilidades de alimentação melhores. Estudos com ossadas desses períodos conseguem às vezes trazer dados sobre a altura que as pessoas atingiam, e geralmente, até o século XV, as pessoas não tinham mais que um metro e meio de altura, e isso está profundamente associado à debilidades na alimentação. Quando dizemos que as pessoas nesses períodos tinham como expectativa de vida média os 35 anos, não significa que todos morressem com essa idade. As elites egípcias, gregas ou romanas, viviam muito mais anos que o conjunto da população trabalhadora, servos ou escravos. Os relatos de banquetes da Roma antiga trazem senhores de escravos que comiam tanto, que num certo ponto da festa, vomitavam o que tinham comido para poder comer mais; há inclusive uma referência a isso, não sei se proposital, no filme Jogos Vorazes, para mostrar como a elite desperdiça enquanto a população passa fome.

A história da humanidade certamente é a história da fome e da subnutrição e os avanços na técnica, o aumento na capacidade produtiva, em nenhuma sociedade dividida em classes correspondeu a uma melhoria ao conjunto da população.

A transição da Idade Média à Idade Moderna, do feudalismo ao surgimento da burguesia mercantil, período da acumulação primitiva de capital, é motivada pela busca por especiarias, por temperos capazes de preservar melhor a carne, por temperos capazes de tornar a carne já apodrecida comestível. Não havia geladeira, não havia bons métodos de conservação da carne, e a Europa medieval comia carne semi-apodrecida, e isso para a elite, para os senhores feudais, porque os servos camponeses mal tinham o que comer.

Mas nenhum período histórico viu tantos e tão rápidos avanços na técnica, no aumento da capacidade produtiva, nas melhorias científicas e médicas, quanto o capitalismo. E mesmo a produção agropecuária tornou-se industrializada, com a produção em massa mecanizada. Então, agora sim resolveremos os problemas, enquanto esses socialistas chatos insistem em dizer que as forças produtivas chegaram ao seu limite, somos capazes de produzir uma quantidade de alimentos que assustaria Malthus.

Mas continua existindo fome, e miséria, porque continuam existindo classes sociais. O limite das forças produtivas significa que o avanço na técnica não gera melhores condições à humanidade, e que o capitalismo chegou a uma fase em que gera forças destrutivas para obter seus lucros.

O abismo entre um burguês do século XVIII e um burguês do século XXI é formado por capacidade de acumular riqueza infinitamente maior, os ricos ficam mais ricos. Mas vejamos como as condições de um operário do século XXI são melhores que as de um operário do século XVIII, nesse ritmo, humanizando aos poucos o capitalismo, daqui uns dois séculos vamos garantir todos os direitos da classe trabalhadora, ah, se estes direitos não estivessem regredindo novamente às condições de um ou dois séculos atrás.

Mas a classe trabalhadora pode comprar carne. Tem a inflação, e os salários não têm aumento real, e o poder de compra diminui, mas dá pra comer carne. A carne é cara, mas as pessoas se alimentam melhor do que um século atrás.

E a carne que compramos é podre. Com técnicas mais sofisticadas do que temperá-las com especiarias indianas, a podridão é disfarçada, para que não saibamos o que consumimos. A carne tem papelão no meio. Porque o nível nutricional do papelão deve ser uma maravilhosa.

O frango e a carne bovina são cheios de hormônios, e os vegetarianos falarão das condições cruéis em que estes animais são criados. E estão certos. Mas não comer carne por opção é uma coisa, não comer carne porque ela é vendida podre, é outra. É possível no capitalismo os animais serem criados de forma saudável, sem hormônios? O frango demoraria o triplo do tempo para chegar à fase do abate, e isso significa o triplo de investimento, e qualquer investimento diminui o lucro.

A burguesia vende carne podre porque quer manter o seu lucro. Não há como humanizar uma sociedade em que um punhado de ricos decidem como vão produzir visando apenas seu próprio lucro. Não há como garantir a produção de quantidades de alimentos saudáveis e de qualidade suficientes a toda a população dentro do capitalismo.

Esses dias no mercado tentei achar uma única marca de molho de tomate sem transgênicos, e o que encontrei foram algumas marcas que não tinham o rótulo avisando que tinham transgênicos. Porque as leis são feitas para proteger as empresas, para que eles não sejam obrigados a dizer como e com o quê fazem os alimentos. Se eu não comprar o molho transgênico, irei comprar um tomate cheio de agrotóxicos. As doenças causadas pelo consumo constante dessas substâncias e alimentos alterados sequer são conhecidas. Mas sabemos que os índices de câncer vêm aumentando, e sabemos que a saúde da população continua ruim.

Tenho certeza que os grandes burgueses têm esposas adoráveis, como uma primeira-dama, e que elas têm cachorrinhos fofos, daqueles de marcas, digo, raças muito caras. Imaginemos esses cães-de-estimação da burguesia, e que eles não são alimentados com carne da Friboi. Os lulus-da-pomerânia das burguesas comem carne melhor do que a que é vendida à classe trabalhadora.

Inventamos o fogo, domesticamos animais, criamos indústrias, e a humanidade continua comendo carne podre. Mas agora isso não acontece por uma necessidade, e sim, pela gula de lucro da burguesia.

Tonne de Andrade,

professora de História e poetisa

Observação 1: a proposta desse texto não é ser um artigo de História, por isso, as informações históricas nele contidas estão colocadas de forma descompromissada e sem citação de fontes ou referências.

Observação 2: a proposta desse texto não é entrar no debate do vegetarianismo, respeito quem opta por ser vegetariano ou vegano, mas discordo que somente isso solucionará como os animais são maltratados no processo de produção de carne.

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