Sobre pessoas e passos
- Tonne de Andrade
- 14 de jan. de 2017
- 4 min de leitura
Estava analisando meu Facebook. Existem mil e uma reflexões sobre como as redes sociais tornam as relações humanas superficiais e blá-blá-blá. Eu discordo, simplesmente porque não se aplica à minha vida, graças ao Facebook eu mantenho contato com pessoas com as quais eu não manteria contato se não houvesse uma via tão prática para isso.
Mas surge uma sensação interessante quando percorro minha lista completa de “amizades”, entre aspas, porque a lista do Facebook é de conhecidos, amigo é outra coisa. Tenho a diretriz de só adicionar pessoas que conheço/conheci pessoalmente, e ainda assim tenho quase mil conhecidos. Que gama fantástica de pessoas diversas que me mostram um histórico de onde, como e o quê vivi ao longo desses meus poucos vinte e cinco anos.
E que sensação instigante ao ver onde e como estão essas pessoas agora, vejo suas fotos no perfil, e não são os mesmos rostos de dez, cinco ou um ano atrás, as pessoas mudaram e isso me lembra que eu mudei. Sabe aquela menina que era gorda no Ensino Médio? Está magra. E sabe a que era magra? Está gorda. Sabe a que usava cabelo super-comprido? Cortou. Sabe a que só ia pra escola de uniforme e era toda certinha? Está usando dreads e roupas ousadas. E eu mesma sou outra, que divertido ver minhas fotos de uma adolescente magricela pesando 45 quilos, e ver minhas fotos atuais pesando 85 quilos e aprendendo a lidar com esse peso; e todos os mil cortes e cores de cabelo que já usei.
Sabe os colegas de escola? Já se formaram na faculdade, alguns estão no mestrado. Alguns mudaram de curso no meio do caminho e reiniciaram em outra área, totalmente diferente do que esperávamos. Sabe os colegas de faculdade? Estão formados, alguns no mestrado, alguns foram trabalhar em outra área, alguns estão trabalhando em lugares muito legais e você se sente feliz de ver onde as pessoas foram parar. Os colegas de trabalho, alguns ainda estão naquele mesmo lugar onde trabalhamos juntos cinco, dois, um ano atrás; outros estão em outros lugares, e é maravilhoso ver as pessoas seguindo seu caminho. E é então que cai a ficha de que eu também já encerrei esses ciclos, encerrei a escola, concluí a graduação, estou no início/meio de um mestrado, ciclos que pareciam eternos, três anos de Ensino Médio, muitos anos de faculdade, três anos de mestrado (já foi um), e os ciclos giram, se fecham e se reabrem.
Aquele amigo que passou dois anos morando fora, e isso era a eternidade, e vocês nunca mais se veriam, voltou faz muitos anos. E as pessoas não moram mais onde moravam antes, viajaram, conheceram outros países, voltaram, ou se mudaram para outras cidades, outros estados, outros países. E eu conheci alguns lugares, ainda não outros países, mas mudei de endereço, mudei de casa, e agora isso é um lar.
Sabe a colega de escola com quem você confidenciava segredos de paixonites adolescentes? Está casada. Ah, meu deus, outras já são mães! E aquele amigo irresponsável, o maloqueiro, o que nunca ia tomar jeito na vida? Virou pai, está curtindo o casamento e ter filhos. As pessoas te surpreendem, porque a vida não é linear, as pessoas não seguem o curso que criamos em nossa mente para elas, e o mais fascinante é que as pessoas mudam seus próprios rumos. E eu mesma não segui um rumo diferente do que projetava em minha cabeça? A adolescente de paixões platônicas sofridas da época de escola, a jovem que curtia muito as festas na faculdade, nossa, estou casada há três anos; mas vamos deixar os filhos pra depois, que ainda está cedo pessoal...
Tem algumas coisas que confesso, não sou boa em lidar, por exemplo, aquele casal de amigos que namoraram durante anos e anos, e você imaginou que seria madrinha dos filhos deles, bem, eles terminaram. Eu não lido bem com o término do relacionamento dos meus amigos. O engraçado é ver casais inusitados surgindo, aqueles seus amigos que foram só amigos entre si durante anos, e imagina, nunca ficariam juntos, ah, agora são um casal, como assim?
E os ex, as ex? Nossa, adoro quando pudemos manter a amizade, manter boas lembranças entre nós, e seguirmos nossos caminhos. Adoro poder torcer para que encontrem novas pessoas em suas vidas que as façam feliz. Adoro manter boas lembranças em meu coração, e perceber que agora estou criando outras novas lembranças com uma pessoa, que quem sabe, será para a vida toda.
Rever os rostos de mil pessoas que conheci ao longo da vida, na infância em Piracicaba, nas escolas que estudei, nos lugares onde trabalhei, não é só uma onda de boas memórias, há sensações de vazio. Ver aquele rosto daquela melhor amiga, aquela que eu via todos os dias, com quem eu conversava todos os dias, por quem eu daria minha vida, céus, eu não converso com ela há anos, eu não sei mais quem é ela, e hoje talvez sejamos já tão diferentes uma da outra, que não saberíamos conversar.
Há os rostos de pessoas que admirei muito, respeitei muito, eu queria ser como você, e você não significa mais nada. Há os rostos de pessoas que me decepcionaram, que mentiram, que mudaram para algo que eu não posso mais concordar. Nem sempre as pessoas seguem o rumo que gostaríamos para elas, e só posso aceitar, talvez os meus rumos para essas pessoas também pareçam errados. Mas não sou mais dona da verdade, a verdade é para adolescentes que acham que já sabem tudo da vida; e se tem uma coisa que a vida adulta faz bem conosco é quebrar nossas certezas.
Eu tenho vinte e cinco anos, e admito que faz pouco tempo que tomei consciência de como isso é pouco, de como sou jovem e inexperiente e imatura para muitas coisas, do quanto preciso aprender, viver, calejar mais, e a verdade é que não sei, por mais que adore fazer planos e definir projetos, não sei onde estarei daqui um ano, daqui cinco, daqui dez, meu deus, daqui vinte e cinco anos.
Essas loucuras todas de tantos caminhos, se ramificam, se bifurcam, todos os dias. Não sabemos onde iremos parar, vamos seguindo achando que estamos muito firmes nas rédeas de nossas decisões, quando na verdade, o que nos define, o que nos personifica, não é o caminho que imaginamos que vamos seguir, mas cada experiência, cada passo, cada paisagem, por onde passamos.