Uma semana, nove meses, dez anos (reflexão sobre o tempo)
- Tonne de Andrade
- 1 de mai. de 2016
- 5 min de leitura
Acordei. Tinha se passado uma semana.
Acordei. Tinham se passado nove meses.
Acordei. Tinham se passado dez anos.
O tempo não é linear, é cíclico, é espiral, pula etapas, pula degraus, volta casas; e quando nos damos conta e tentamos contá-lo, descobrimos que ele passou.
Tentamos prender o tempo: tentamos pregá-lo no calendário, fazê-lo girar indefinidamente no relógio; como historiadora tento gravá-lo nos livros de História, como poeta tento enaltecê-lo em meus versos. Mas o tempo é rebelde, ele é outra dimensão, e nós em nossa pequeneza humana queremos quantificá-lo com nossas réguas limitadas.
O tempo do Universo, do Cosmos, se perde em unidades de medida capazes de fundir o cérebro humano, é tempo e é espaço. O tempo histórico que tentamos reconstruir, com as esfaceladas lembranças que nossos antepassados nos legaram, é um grão de areia na praia do tempo cósmico.
O tempo humano, biológico, é uma célula do tempo histórico de nossa espécie. E esse é o único tempo que temos, ou que nos iludimos que temos. Uma expectativa de vida de sessenta, setenta ou oitenta anos solares; se conseguirmos ficar por aqui mais do que noventa rotações completas da Terra em torno do Sol, será muito. Alguns até conseguem atingir a audaciosa estadia de um século.
Nunca chega a ser, obviamente, um século inteiro em nosso auge. A infância, ao menos biologicamente, ocupa a primeira década de nossa existência, fase em que tudo é início e tudo é novidade. A adolescência é uma invenção recente da sociedade para prolongar em mais uma década essa transição da criança ao adulto. O adulto seria o ápice da vitalidade física, disponível ao mundo do trabalho, da produção material, e auge do vigor sexual para a reprodução.
A atualmente chamada terceira idade começaria biologicamente na mulher com a menopausa por volta dos cinquenta anos; mas vamos considerá-la a partir dos sessenta, quando teoricamente teríamos o direito de nos aposentar do mundo do trabalho e desfrutar a vida. O que nos resta depois dos sessenta para uns é o descanso por aqui, para outros é aguardar o descanso por lá. Onde é lá? Ninguém voltou para contar. Mas depois de seis décadas por aqui, ainda podemos ter mais duas ou quatro décadas, contudo não mais com vigor físico, já que o corpo estará, como sempre esteve, envelhecendo.
Curioso é como não lidamos com isso dessa forma. Para nós, a criança não envelhece, ela cresce. E o adolescente não envelhece, ele amadurece. E crescer e amadurecer são processos considerados positivos, de evolução. No entanto, o adulto não cresce nem amadurece, o adulto envelhece. E envelhecer é a regressão.
Minha relação com o tempo mudou muito no último período. Creio que cheguei na adolescência por volta dos catorze, um pouco mais tarde que minhas amigas, e da fase de criança para adolescente eu acreditava estar chegando ao ápice da minha existência. No meu entendimento, atingir os quinze anos era chegar ao meu auge físico, psicológico e emocional; aquilo era meu aperfeiçoamento, e o que viesse depois seria, portanto, a decadência.
Eu queria ter dezessete anos para sempre: nunca trabalhar, nunca assumir responsabilidades; sempre me divertir. Fiquei sete anos na universidade, na graduação (um pouquinho mais que meus amigos, talvez), e aquilo parecia a eternidade, e não vi que nesses sete anos eu estava me transformando. De repente, peguei meu diploma e me dei conta de que aqueles sete anos foram cristalizados, condensados, num pedaço de papel. Já não consigo na memória diferenciar bem um ano do outro. De um baque, descobri que tinham se passado sete anos, e que aquele período não foi o meu ápice intelectual, e sim o percurso inicial, somente o aquecimento para a corrida que quero fazer.
Iniciei este ano um mestrado, e na contabilização do calendário ele deve durar trinta e oito meses. A princípio, isso me pareceu a eternidade. Eu nunca havia me planejado para um período de tempo tão longo, nunca havia projetado uma imagem de mim mesma no futuro para um período de tempo tão longo.
De repente, como escritora, releio e publico meus primeiros poemas, e descubro que esses já têm uma década ou mais desde que foram concebidos e escritos. A poeta que publico quando divulgo um poema meu de 2006 é aquela adolescente de quinze anos que se achava no ápice de sua existência. Só os publico agora, dez anos depois, e me fazem recordar quem eu era quando os escrevi. Mas a poeta que os publica hoje, que agora escreve outros novos poemas, já não é aquela.
Como é difícil em termos de prosa, me desvencilhar de personagens que criei no passado e para os quais planejei histórias incríveis, e hoje percebo que preciso abandoná-los para criar outros novos personagens. Não é, porém, uma traição. Abortar um personagem é entender que sua gestação seria de risco, e é me preparar para gestar outros.
Como é estranho pensar em quantas centenas de pessoas já fizeram parte de minha vida, colegas de escola e de faculdade, colegas de trabalho em diversos empregos. E pensar que talvez eu já tenha esquecido o nome de metade e perdido contato absoluto com pessoas que em algum momento eram a razão do meu dia começar. E o mais estranho é pensar em quantas outras centenas de pessoas ainda poderão passar por minha vida, e que muitas delas de fato não me deixarão muita coisa.
Quantos amores adolescentes foram a paixão eterna que eu amaria para sempre e que hoje não faço ideia de onde estão. Quantos términos de relacionamento que foram o fim da minha vida, que eu nunca mais amaria ninguém, e que agora nem entendo como pude amar aquela pessoa.
Crescer nesse mundo do tempo acelerado do capital e do universo digital é doloroso porque não nos permite tempo para a reflexão. Oito horas de trabalho por dia, um fim de semana para poder descansar, um ano para chegar as férias, e somos engolidos pela rotina. A obrigação de estarmos conectados a tudo e a todos o tempo todo, expondo tudo que fazemos e sentimos nas redes sociais, não nos dá tempo de sentir e pensar sobre o sentimos, os segundos de uma postagem na internet não nos dá tempo de refletir sobre o que fazemos.
Os filmes no cinema estão mais rápidos. Achamos cansativo e tedioso filmes de poucas décadas atrás, cujo ritmo era mais lento. Somos invadidos por relógios e calendários em todos os espaços públicos, nosso tempo sempre é contado, marcado, registrado, mesmo que sem ganhar nenhum significado.
Cronos é o grande deus grego que é Tempo. Crônica é uma palavra que vem de Cronos, bem como cronologia e cronológico. Desses termos derivados, certamente o mais engraçado, é cronômetro, esse objeto para metrificar o tempo. Só que o tempo é rebelde como a poesia, e métrica alguma pode prendê-lo. Nossos cabelos brancos e rugas virão, não importa o que façamos.
Em um mês e meio comemorarei um quarto de século por aqui. Em termos de auto-consciência, não tenho recordações de antes dos cinco anos de idade, e minhas memórias da infância anteriores aos dez anos são bem confusas e esparsas. Tento dar nitidez às recordações dos últimos dez anos, que descobri agora, acabaram de passar. Olhei-me no espelho e vi que não tenho quinze anos. E que não parei de crescer nesse tempo: estudei, trabalhei, amei, paguei minhas contas, aprendi. E já tenho uns fios brancos, o que não é problema, já que eu sempre os tingi.
Tudo o que vivi nesses em breve vinte e cinco anos foi muito pouco perto do que quero viver. Fazer um planejamento dos próximos três anos não é planejar o resto da minha vida, é planejar só o próximo passo. Haverá muitos outros depois.