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Visões de um cego - dica de livro

  • Tonne de Andrade
  • 26 de jan. de 2016
  • 5 min de leitura

Selecionei alguns trechos de um livro muito interessante de um escritor cego, que entre causos cômicos e sérios nos aproxima da realidade das pessoas com deficiência.

O nome do livro é Visões - Para Uma Boa Conversa Sobre Inclusão e Cidadania.

O autor é Carlos Ferrari, que tem o blog: http://www.blogdoferrari.com.br/

“Decidi resgatar essas memórias, pois ainda vejo presente um forte entendimento da população, independente da condição econômica ou intelectual, que vincula a idéia de deficiência com doença. Boa parte das pessoas não consegue diferenciar a patologia que provocou a limitação, do fato em si. Essa leitura equivocada, muitas vezes produz uma série de sentimentos preconceituosos como a piedade e o estranhamento, a partir de um raciocínio focado na idéia de que a única solução para aquela pessoa com deficiência é a cura.”

Sobre as cores: “No caso de quem nunca viu, a coisa, no entanto, é bem diferente. Para eles cores não são vistas, mas sim ditas e ouvidas. São palavras que somadas a um número infindável de sensações e percepções, os permite criar uma concepção única, porém não menos intensa, para dizer o que para eles pode vir a ser belo. (...) O belo para o cego é diferente. Pode nascer da sensibilidade com que muitos organizam as palavras, em poesias, canções, e porque não dizer na forma de se colocar. Tudo isso pode ganhar ainda mais brilho se vier acompanhado de um tom de voz envolvente, seguro e de preferência afinado. A beleza para quem não vê é altamente atrelada ao sinestésico, e pode encantar a partir de perfumes, um abraço, um beijo, enfim um jeito diferente de tocar.O belo pode ser visto por quem não enxerga, quando a natureza se manifesta; o calor do sol, a irreverência e espontaneidade das chuvas, ou simplesmente a leveza de ventos carinhosos e da brisa do mar.

Não tenha medo de falar de cores, ou tratar do lindo e do feio da próxima vez que conversar com uma pessoa cega. Vai ser uma troca de experiências única, sem certo nem errado,. Você poderá pensar, “mas nossa só pode ser cego mesmo para achar isso bonito”! Por outro lado talvez seu interlocutor possa dizer para si mesmo baixinho, “nossa como pode, a pessoa enxerga tudo mais não viu nada”! Cultivemos todos então a beleza da inclusão.”

“Praticar a diversidade pode causar estranhamento ou como se diz popularmente uma pequena torção de nariz de uma sociedade acostumada, sabe-se lá por quem, a esperar “casaizinhos padrão”. Sempre então, os dois da mesma idade, da mesma raça, da mesma classe social, só nunca do mesmo sexo. Surdo com surda, cego com cega, a gordinha com gordinho. (...) Vivemos em uma sociedade cada vez mais pautada pelo visual e pela padronização. Muitos então desconsideram o fato de se sentir atraídos por outra pessoa, priorizando aquela que possa ser mais interessante para ostentar socialmente. Quem já não viu em uma roda de amigos uma piadinha, expondo ao ridículo aquele que saiu com a feia.

Certa vez uma amiga cega, na oportunidade grávida, estava no ônibus voltando para casa quando ouviu, “quem foi o cafajeste que fez isso com a moça”. Isto mostra que mais do que desconsiderar o amor construído a partir da diversidade, muitos ainda precisam aprender que amar nunca é pecado!”

“Quando lutamos por acessibilidade, aquela hoje felizmente assegurada por lei, não é apenas de adequações arquitetônicas que estamos tratando.

Também se faz necessário uma readequação de comportamentos e atitudes, tornando acessível os serviços e as relações sociais.”

“Uma das principais lições que todo ano era reforçada, e hoje como professor ainda faço questão de exercitar, é o potencial das limitações.

Descobrimos que quando existe alguma deficiência, existe também a vantagem de se lembrar disso o tempo todo. Não dá para esquecer ou jogar de baixo do tapete. E aí, é transformar isso em uma grande alavanca ou em uma grande cortina.

A alavanca faz com que cada limite se transforme em meios para alcançar potencialidades escondidas e a cortina serve como esconderijo dos desafios que a vida pode nos trazer. (...) O aluno com deficiência, inserido em uma sala de aula, infelizmente acaba boa parte das vezes herdando algum rótulo, que vai do super aluno, até o de coitado, incapaz de realizar as tarefas solicitadas.”

“A construção desse novo país depende de um trabalho conjunto, onde toda a sociedade utilize suas limitações como alavancas de seus potenciais. Milhares de livros são vendidos dizendo você pode, você é um vencedor, o sucesso depende de você. Proponho então que escrevamos livros sobre nossos limites. Precisamos enxergá-los e encará-los frente-a-frente. Só assim, poderemos transformá-los nas grandes alavancas que resgatarão a auto-estima e a real capacidade inerente a todos de ir além.”

“Muitas vezes a sociedade acaba excluindo por excesso de zelo, colocando aquele com uma única limitação na condição de demandante de cuidados intermináveis. Assim, a discriminação manifesta-se não apenas em situações caracterizadas pelo desprezo, pela agressividade, ou pelas ironias. Também aparece no excesso de cuidados, na descrença diante de conquistas e na proteção desnecessária e gratuita.”

“Várias vezes, já me deparei com pessoas constrangidas ao se referir a minha deficiência. “Você … como posso falar, deficiente visual”? A sociedade brasileira ainda não descobriu que dizer que alguém é cego não se trata de uma ofensa e que todo o peso dado à palavra é o que cria o rótulo. (...) Caros leitores, aquele que não vê nada, é cego sim, e qualquer outro termo utilizado reforça toda a carga já dada a esse adjetivo tão utilizado. O amor, cego de nascença segundo poetas, boêmios, amantes e despeitados, ainda não tem um laudo oficial que comprove tal deficiência. Há quem diga inclusive que o amor verdadeiro enxerga o outro em sua totalidade.”

“Está longe de acertar quem afirma que as condutas discriminatórias e preconceituosas para com pessoas com deficiências, são sempre exercidas de forma agressiva e truculenta. Boa parte das vezes o que acontece é exatamente o contrário! A voz doce ou mesmo as palavras carinhosas, traduzem muitos dos sentimentos daquele em tese “normal”, que se vê na condição superior, e, portanto trata o outro como alguém menor, mais frágil; ou seja, alguém que precisa de cuidado e proteção.

“Fica aí sentadinho que eu já volto viu!” “Cuidado, cuidado, assim não pode, você vai se machucar!”. Essas são algumas das frases que freqüentemente ouvimos, causando duplo constrangimento: o primeiro pela distorção dada a uma relação entre duas pessoas adultas. O segundo por termos que corrigir uma postura aparentemente inocente, o que no final das contas ainda nos garante o rótulo de mal educado ou mal agradecido.”

“Pensando no passado fiquei admirado em observar como a sabedoria infantil privilegia a inclusão e a acessibilidade. Lembro-me bem das alternativas que eu e meus amiguinhos encontrávamos para brincar de bola. Sem que tivéssemos uma daquelas preparadas, com guizo, enfim como deve ser, providenciávamos uma sacola plástica bem barulhenta que pudesse com a bola ensacada, fazer com que eu soubesse o tempo todo onde ela estava. Ser cego também nunca me impediu de brincar de pega-pega, já que os colegas adoravam me ajudar fazendo barulho para eu saber sempre onde cada um estava.”

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