Precisamos debater sexualidade nas escolas
- Tonne de Andrade
- 29 de jun. de 2015
- 6 min de leitura

Os municípios estão votando nesse próximo período os Planos Municipais de Educação. E a bancada conservadora, formada por líderes religiosos (de diferentes vertentes) em partidos que vão do PMDB e PSDB ao PT, está impondo novas restrições e ataques à educação.
Os setores conservadores querem retirar das escolas qualquer debate sobre: identidade de gênero, sexualidade e diversidade sexual. Precisamos limpar terreno: não é como se já existisse uma política pública para debater esses temas nas escolas. Dilma vetou o kit anti-homofobia. O máximo desse assunto que aparece é nas aulas de Ciências ou Biologia, na forma de estudar a anatomia humana, órgaõs reprodutores e só.
Alguns professores mostram fotos 'nojentas' de DST's (doenças sexualmente transmissíveis) para assustar os alunos, todo mundo pensa "eca, não quero pegar isso, nunca vou transar na vida" e dois minutos depois acaba a aula chata e todo mundo esquece.
A educação hoje já está ruim, os materiais didáticos atuais já são ruins (a exemplo dos cadernos do aluno do Estado de São Paulo), as propostas curriculares já são impostas aos professores. As escolas são voltadas pra uma formação superficial, com um monte de decorebas pro vestibular desconectados da realidade e que muitas vezes não estimulam o aluno a continuar estudando.
Com os atuais debates que as câmaras de vereadores estão fazendo, não é que vão retirar algo de bom que já existe, e sim impedir que venha a existir qualquer medida nova nesse sentido.
Há alguns desses políticos que alegam coisas como "a escola tem que ensinar matérias como português e matemática, e não esses outros assuntos", que seriam responsabilidade dos pais. É hora de professoras e professores discutirem essa situação. Nós sabemos que a escola tem o papel de formar e preparar a criança e o adolescente não só para ter os conhecimentos básicos curriculares, como para formar pessoas críticas, com capacidade de reflexão e de tomar as próprias decisões.
Também sabemos que a mídia, televisão e internet disseminam todo tipo de opressão; e sabemos que a família muitas vezes não debate nenhum desses temas com seus filhos, muitas vezes pelo próprio desconhecimento, muitas vezes por questões religiosas.
Então eu darei alguns exemplos de situações que vivenciei em sala de aula, quando trabalhei como professora no ano passado, e da realidade com que nos deparamos. Sou professora de História, mas durante alguns meses atuei como eventual e professora de apoio.
Desde o início senti uma barreira com meus alunos, que não se dispunham a debater nenhum assunto em sala de aula, e elaborei um projeto pra despertar o interesse deles: comecei a dar aulas de orientação sexual para os 1ºs anos do Ensino Médio (com alunos entre 14 e 18 anos).
Era a melhor forma de mantê-los atentos na aula: falar do assunto que eles mais falam entre si. Meu método inicial foi sugerir que escrevessem suas dúvidas sobre sexualidade num papel e me entregassem, de forma anônima, assim ninguém se sentiria envergonhado e eu poderia tirar as dúvidas. Lógico que houve alguma resistência por parte de alguns, outros que escreveram bilhetes 'tirando sarro', mas principalmente as meninas escreveram listas de dúvidas, de todos os tipos.
Sem constrangimento, e com auxílio de alguns materiais da área de Biologia, procurei debater esses assuntos, não só do aspecto dos órgãos sexuais e da reprodução humana, como nas aulas de Biologia; mas tratar de sexualidade, que é algo que envolve emoções, sentimentos, comportamentos e a complexa psicologia humana.
Procurei desfazer preconceitos e mitos. E ainda que não tenha tido sucesso com todas as turmas, a maioria se animou. Quando enfatizei que as meninas escreviam suas dúvidas, é porque notei que os meninos se sentem muito constrangidos de demonstrar que não sabem algo que envolva sexo. A pressão machista que eles sofrem de ter que se reafirmar perante os colegas o tempo todo como "machões e garanhões" impedia os garotos de fazerem perguntas. Céus, quantas dúvidas esses meninos têm e eles não têm coragem de perguntar! Quem vai orientá-los? A internet?
Na sala de aula uma das primeiras coisas que percebemos é que os professores vivem uma verdadeira guerra contra os celulares: nossos alunos sempre estão olhando algo na internet ou ouvindo música. E acabamos ouvindo trechos dessas músicas, geralmente o funk. E o problema que eu debatia com eles era sobre a letra dessas músicas (não o estilo), trechos que dizem coisas como: "passa a língua na cabeça"(do pênis, obviamente), ou "eu vou te atravessar e vai machucar". Enfim, é fácil achar essas músicas, e as letras são assustadoras. Os garotos achavam engraçado e cantavam pra mostrar como entendem tudo de sexo.
Músicas que falam do corpo da mulher de forma coisificada, que tratam do sexo de forma violenta, bruta, sem respeito algum. Isso para eles é normal. Boa parte dos garotos aprendem o que devem fazer no sexo assistindo algum vídeo pornô. E não é necessário darmos nenhum exemplo mais concreto para saber que os filmes pornô em geral apresentam o sexo como uma relação objetificada, violenta, e só para a satisfação masculina. E esse é o modelo que os garotos aprendem e querem seguir.
E não, eles não sabem colocar camisinha. Eles não estão nem um pouco preocupados com isso.
Conforme as aulas iam passando, eu podia perceber que boa parte dos alunos e alunas já haviam iniciado sua vida sexual. O que só aumentava suas dúvidas. Eu tinha alunas de 15 anos que não eram mais virgens (não que haja algum problema com isso), mas que não sabiam por que as mulheres menstruam! Uma confusão comum entre elas era achar que as mulheres fazem xixi pela vagina. Aqui não se trata só de ensinar o funcionamento da biologia, é importante que essas meninas conheçam o próprio corpo, conheçam a si mesmas, que possam se respeitar e respeitar seus próprios limites. Essas garotas aprendem o tempo todo que seus corpos existem pra satisfazer os homens, que se 'a menina não dá' pro cara, ele arranja outra; que elas precisam ter um namorado, que elas precisam satisfazer o namorado.
Numa das aulas em que eu estava explicando o funcionamento da pílula do dia seguinte, percebi que pelo menos metade das meninas da sala em que eu estava já haviam tomado. E elas não sabiam exatamente como funcionava. Algumas achavam que é uma pílula que pode tomar sempre.
Se algum desses políticos conservadores acha que trazer o debate pra sala de aula vai fazer surgir uma curiosidade que não existe nos jovens, é porque não fazem a menor ideia de como é a adolescência. Minhas alunas não tomaram a pílula do dia seguinte porque eu ensinei como funciona, elas já haviam tomado, buscando informações sabe-se-lá-onde, e muitas vezes tomando errado. Minhas alunas não tinham coragem de conversar sobre isso com suas mães. Sinceramente, alguma adolescente se sente à vontade de pedir pra mãe para ir ao ginecologista? Óbvio que não, só que toda adolescente precisa ir, mesmo virgem.
Ao longo do ano teve pelo menos 3 adolescentes grávidas naquela escola (índice "normal" pelo que conheço das escolas). Essas garotas eram geralmente condenadas pelos colegas, como se elas tivessem engravidado sozinhas e não houvesse nenhum rapaz envolvido. Os rapazes saem ilesos. Inclusive dentro da sala dos professores cheguei a ouvir comentários maldosos por parte de colegas de trabalho. Porque não é todo professor que está pronto pra debater esses assuntos, e é necessário ter políticas de formação para a categoria. Muitos colegas entram na sala de aula cheios de preconceito e julgam suas alunas ao invés de orientá-las.
As 'piadas' machistas e homofóbicas são constantes na sala de aula (e muitas vezes na sala dos professores). Quando eu tento explicar para um aluno que ele não deve falar pro outro 'vai tomar no cú', eu não estou tratando de moralismo ou puritanismo porque "falar palavrão é errado". Eu debato que isso é machista, que isso é homofóbico.
Falar de homossexualidade com os alunos é um grande tabu. Aos 15 anos eles já estão repletos de preconceitos. Aqueles que demonstram ser homossexuais passam por situações de violência por parte dos demais.
A adolescência já é uma fase complicada, já traz uma série de inseguranças e mudanças. É necessário ter um ambiente tranquilo, livre de preconceitos, onde essa juventude possa tirar suas dúvidas e possa se sentir à vontade para se desenvolver. A escola precisa ser esse espaço. A escola pública.
É necessário que educadoras e educadores, e também toda a sociedade, lute por esse direito. Que os governos garantam resoluções nos planos municipais de educação que incluam políticas reais de formação de professores sobre o tema da sexualidade e investimento nas escolas, porque política é dinheiro e não só votar um plano no papel.
Por fim, divulgo uma cartilha online de orientação sexual elaborada pela Enfermagem da USP:
http://www.ee.usp.br/publicacoes/pdf/vamos_falar_sobre_sexualidade.pdf