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Feminismo - estudos de antropologia

  • Tonne de Andrade
  • 5 de jun. de 2015
  • 5 min de leitura

Tem uma parte no site onde postei a temática Feminismo com conteúdos de opinião e debate político sobre o tema na atualidade. Este post tem o propósito de formação e acúmulo teórico sobre o assunto. Aqui não exprimo necessariamente minha opinião, pelo contrário, são reflexões de diversas autoras e autores, em que tenho desacordo com a maioria.

São anotações pessoais que utilizei neste semestre para estudar uma disciplina na faculdade: Antropologia e gênero. Isso porque é uma disciplina de Antropologia e não História, que é a minha área, portanto tenho que me adequar a conceitos próprios dessa área de conhecimento.

Essas aulas são magistralmente ministradas pela professora Heloísa Buarque. Os resumos postados no blog não fazem juz à complexidade dos conteúdos dos textos e não são transcrições fidedignas das aulas, sendo somente resumos e anotações que eu mesma faço dos temas, em que às vezes surgem reflexões pessoais.

Resumo da aula do curso de Antropologia e gênero.

Tema: Algumas reflexões sobre o corpo e sobre as relações entre homens e mulheres na teoria antropológica clássica.

- o termo gênero começa a ser usado na década de 1.970, na chamada segunda onda feminista. Isso inclui um debate sobre opressão.

- MAUSS, Marcel: 'As técnicas do corpo':

o corpo é em parte natural, mas os hábitos e técnicas que o corpo adquire são sociais. Por exemplo: é uma necessidade natural do corpo dormir, mas onde, quando, e por quanto tempo se dorme é moldado socialmente, alguns povos dormem em redes, outros em esteiras no chão, outros em camas, e seus corpos se acostumam a esse processo. Ou comer, que também é uma necessidade natural do corpo, mas o que se come, quando, como e onde depende dos hábitos culturais e condições sociais: alguns comem com as mãos, outros com hashi, outros com talheres, alguns rezam antes de comer, alguns comem peixe cru, outros comem bacon no café-da-manhã etc.

Não só nossos hábitos são moldados socialmente (e historicamente, pois tudo isso depende de em que lugar, em que cultura e em que época nascemos e nos inserimos), mas até nossos sentidos se adequam, por exemplo, o povo inuit que vive em regiões constantemente cobertas de neve, tem a visão adaptada para enxergar os diferentes tons de branco da neve; os chineses têm uma audição extremamente apurada para identificar diferenças de entonação nos sons que lhes permitem com que uma palavra silábica como 'ma' tenha diferentes significados de acordo com a pronúncia (má, mã, mâ etc).

Ou seja, ainda que nosso corpo seja algo natural (porque provém da natureza), o corpo é treinado socialmente desde que nascemos para se adequar aos hábitos sociais e culturais de onde estamos inseridos.

- O ser humano só humaniza seu corpo socialmente. Um exemplo disso é o famoso caso das meninas-lobo, duas irmãs que foram encontradas no norte da Índia nos anos 1.920, e que haviam sido criadas por um grupo de lobos. Foram colocadas sob os cuidados de um casal de missionários em um orfanato, e são até hoje um dos melhores exemplos que conhecemos de como é o meio que influencia as características que adquirimos.

Elas não falavam, mas à noite uivavam para a lua, já que durante o processo inicial de aprendizagem linguística (considerado de fase principal entre 1 e 3 anos), não tinham sido estimuladas em nenhuma língua. Não conseguiam andar em pé, somente agachadas usando os braços como patas dianteiras; seu estômago só digeria bem a carne crua. Seus rostos eram inexpressivos. Amala, de cerca de um ano e meio, só sobreviveu um ano após ser encontrada; sua irmã mais velha, Kamala, de oito anos, ainda sobreviveu por nove anos, mas os avanços em sua humanização foram limitados. Outra curiosidade nisso, é que elas enxergavam melhor à noite do que dia, pois tinham se acostumado com os hábitos noturnos dos lobos.

O trecho abaixo foi de um artigo de Luca Rischbiete do site: http://www.educacional.com.br/articulistas/luca_bd.asp?codtexto=220

"Para Lucien Malson, que escreveu em 1963 um belíssimo livro sobre as crianças selvagens, a conclusão é clara: "Será preciso admitir que os homens não são homens fora do ambiente social, visto que aquilo que consideramos ser próprio deles, como o riso ou o sorriso, jamais ilumina o rosto das crianças isoladas". (Traduzido de: Lucien Malson. "Les Enfants Sauvages". Editora 10/18, Paris, 1964, página 55.)

- A questão agora é refletir sobre como as sociedades treinam/moldam homens e mulheres.

- MEAD, Margaret: ' Sexo e temperamento':

a autora estuda como cada cultura também treina perfis de personalidade. Ela fez uma pesquisa em que comparou como 3 povos diferentes educavam suas crianças. Em cada um deles encontrou associações distintas da sociedade ocidental atual em que as características atribuídas ao gênero feminino são de afetividade e ao gênero masculino de agressividade.

1. em uma das sociedades por ela estudada, os homens cuidavam das crianças e eram afetivos, enquanto às mulheres eram atribuídas as características agressivas;

2. em outra sociedade, tanto homens quanto mulheres eram afetivos com as crianças, sem distinção de papel;

3. em outra sociedade, tanto homens quanto mulheres apresentavam características agressivas, sem distinção de papel.

Ou seja, seu estudo desmonta a concepção de que sempre as mulheres são afetivas e os homens são agressivos, mostrando que esses valores culturais de quais seriam os comportamentos adequados a cada gênero variam de uma sociedade para outra.

- Com isso apresenta-se uma distinção essencial a qualquer estudo antropológico: de que sexo está para a natureza assim como gênero está para cultura.

O sexo biológico (macho/ fêmea) é algo natural, que depende da carga genética que nascemos (XY ou XX) e os órgãos reprodutivos (pênis / vagina).

Mas não é o sexo biológico que determina nossa identidade de gênero (masculino / feminino), tanto menos quais características são socialmente atribuídas a cada gênero.

Ainda que a maioria das sociedades tenha criado sistemas binários de gênero (masculino / feminino), o que é considerado feminino e o que é considerado feminino é social e historicamente construído. Por exemplo, na corte francesa da Idade Moderna os homen usavam peruca, maquiagem, salto alto. Até a invenção das calças, durante a maior parte da história da humanidade e das culturas, os homens sempre usaram saias, túnicas e vestidos, coisa que na atualidade seria considerado feminino. Da mesma forma, até meados do século XX era considerado exclusivamente masculino o uso das calças, hoje totalmente incorporadas ao vestuário feminino ocidental.

- CLASTRES, Pierre: 'O arco e o cesto':

autor estruturalista.

Apresenta um estudo sobre um povo tribal cujo sistema de divisão sexual do trabalho coloca os homens como responsáveis pela caça, tendo como principal ferramenta o arco, e as mulheres como responsáveis pela coleta de alimentos vegetais, tendo como principal ferramente o cesto.

A partir dessas funções sociais, se estabelece uma associação do objeto arco como masculino e do objeto cesto como feminino, sendo inclusive o manuseio desses objetos permitido somente pelos membros daquele gênero.

No entanto, o objeto de pesquisa e análise do autor são dois sujeitos homens que não se encaixam/adequam à sua função social e como eles e o resto da tribo reajem a isso:

1. um homem assume um lugar feminino nessa tribo, por vontade própria ele muda seu gênero, incorpora o cesto como seu objeto e passa a trabalhar junto às mulheres. Ele se aceita como mulher e é aceito socialmente como mulher.

2. outro homem nessa mesma tribo é um péssimo caçador, e por isso é obrigado a trabalhar com o cesto. Mas ele não se identifica com isso e não incorpora esse papel. Esse indivíduo fica deslocado nessa sociedade, pois ele não consegue estar nem no âmbito masculino nem no âmbito feminino.

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