Gordas são bonitas
- Tonne de Andrade
- 23 de mar. de 2015
- 9 min de leitura

Depois dos moderadores do Facebook não quererem divulgar minha página porque a imagem de capa tinha uma mulher nua (um quadro do Botero, na verdade), fiquei inspirada a escrever dois textos sobre o tema: o primeiro, que é este, para fazer uma breve explicação do por quê é tão importante para mim a obra de arte de Botero pelo fato de representar uma mulher gorda. O próximo texto, ainda não escrito, será sobre a diferença entre arte erótica e pornografia, pois não é possível que um quadro seja confundido com 'material para adultos'.
Começando pela escolha do quadro 'Mujer leyendo', em que há uma mulher gorda nua deitada de bruços na cama lendo um livro, para não deixar dúvidas: isso foi uma opção política feminista. O colombiano Fernando Botero é um dos poucos artistas que retrata pessoas gordas, e dentre elas tem várias obras mostrando mulheres gordas nuas e sensuais.
Como estudante e professora de História, o tempo todo me deparo com obras de arte de outros perídos e povos que acabam retratando seus ideais de beleza. Ao analisar as obras de arte mais antigas, vemos que os padrões de beleza anteriores ao século XX na maioria das vezes definiam que mulher bonita era a mulher gorda.
Óbvio que a existência de um padrão de beleza já é um problema, e que ele em geral reflete o que a classe dominante de uma determinada sociedade considera belo, sua própria visão de mundo que impõe ao resto da sociedade. Mas não é este o foco do texto. E também estou bastante limitada, já que não tenho um conhecimento mais específico em História da Arte (afinal, isto é um blog, não minha tese de mestrado).
Quero antes refletir o por quê de em tantas culturas distintas haver a mesma apreciação do corpo gordo como algo belo. E podemos pensar em vários motivos.
Um motivo simples e de origem natural é acompanharmos o próprio desenvolvimento do corpo humano, algo que nossos ancestrais já observavam: as grandes transformações da fase infantil da menina para a fase adulta da mulher, que envolvem esse corpo se preparar biologicamente para a reprodução: os seios crescem, as formas de tornam maiores e mais arredondadas, o quadril alarga (a questão da mulher de quadril largo ser melhor 'parideira'). É óbvio que eu não acho que a principal função da mulher no mundo é engravidar, mas pensemos por um minuto como os povos primitivos e na questão básica da necessidade de reprodução da espécie: quem era melhor para gerar uma criança? A magricela desnutrida ou a mulher de seios grandes e quadris largos?
Estamos falando da Vênus de Willendorf e de praticamente toda a produção de arte rupestre que representa a mulher com o corpo como ele é se não o submetemos a dietas. Do Paleolítico às obras da Antiguidade clássica greco-romana encontramos as mulheres representadas com esse corpo, ou inclusive com essas características exacerbadas, já que a gordura ali era associada à idéia de fertilidade, maternidade e sensualidade.
Porque é uma tendência do corpo que com o passar dos anos o metabolismo desacelerece e é normal que a cada virada de década na nossa vida engordemos um pouco mais, caso continuemos mantendo a mesma alimentação. É por isso que toda adolescente tem mais facilidade pra ser magra e depois que ultrapassa a barreira dos vinte sente essa diferença.
Infelizmente aqui me pauto pelo meu conhecimento de arte européia, porque tenho um conhecimento muito restrito do resto do mundo (é difícil ir contra a corrente que a universidade nos põe). Ainda assim, uma breve olhada em obras que retratam as mulheres orientais antigamente, ou as nativas indígenas da América na época da colonização nos mostram mulheres com um corpo naturalmente cheinho. Os seios das índias eram caídos, como o seio de qualquer mulher é se não passar por uma cirurgia plástica, pelo simples motivo de que a força da gravidade exerce sua função sobre nossos seios.
Voltando à Europa e sua produção artística medieval e da Idade Moderna, vemos as cheinhas de novo: quadris largos, coxas grossas, rosto redondo, barriguinha saliente. Principalmente se pegarmos as obras a partir da Renascença, em que há um retorno à representação do corpo nu (censurado pela Igreja Católica na Idade Média e pelos moderadores do Facebook hoje em dia).
Essa valorização da mulher gorda representava o ideal de beleza da classe dominante, primeiro da nobreza durante o feudalismo, e depois da burguesia da modernidade. Ser gorda significava comer bem, comer sempre, comer o que quisesse, e esse era um luxo que só as mulheres ricas tinham. É um mito que as mulheres não trabalhavam antes do século XX (isso se aplica às mulheres das camadas médias da sociedade, que de fato só se incorporaram em massa no mercado de trabalho no último século), mas durante o feudalismo as mulheres camponesas trabalhavam na plantação e com o início da Revolução Industrial as mulheres proletárias foram empurradas direto para o trabalho fabril, onde recebiam metade do salário que um homem pelo mesmo trabalho (hoje a diferença no Brasil é de 30% se consideramos um homem branco e uma mulher branca, e chega a 70% se a mulher for negra).
Ou seja, nem as camponesas, nem as proletárias do passado tinham uma boa alimentação, e trabalhavam muito, o que fazia com que não fossem muito saudáveis (vide a expectativa de vida desses períodos). De modo que ser gorda era ser bonita, e só as ricas que não trabalhavam é que tinham esse luxo de comer bem e ser sedentárias.
E eis que chegamos ao século XX quando ocorre uma grande mudança nos padrões estéticos sobre as mulheres, que passam a ser marcados por uma noção higienista da ciência das primeiras décadas do século passado, que buscava padronizar os corpos. Este foi um movimento combinado com o eugenismo europeu que culminou no extermínio sistemático daqueles que os arianos consideravam como 'raças inferiores', e no Brasil com uma política consciente do Estado de embranquecer a população importando mão-de-obra branca.
Num mesmo período histórico, essa expressão se deu de modo diferente no mundo, mas de forma entrelaçada: enquanto os nazistas mediam os narizes e crânios dos negros para dizer que eles eram inferiores, surge toda uma padronização para o corpo da mulher que é voltado a exaltar a ariana perfeita. É assim que o padrão da mulher branca, loira, de olhos azuis (do Norte da Europa) se dissemina como ideal de beleza para o resto do mundo, inclusive o Brasil. Nem me alongarei nessa origem profundamente racista dos padrões estéticos que vigoram até hoje.
A Educação Física e a ginástica, o atletismo, surgem como mecanismos de aprimoramento do corpo visando essa raça superior e a formação de um povo com o corpo preparado para a guerra, visando a formação dos exércitos nacionais. Não posso deixar de citar a frustração dos nazistas quando nas Olimpíadas de 1936 na Alemanha um atleta negro, Jesse Owens, levou quatro medalhas de ouro, jogando por terra toda a suposta superioridade física ariana.
A atividade física como algo visando a saúde é importante, aqui estou criticando o culto ao corpo e a obsessão por transformá-lo em algo inalcançavelmente perfeito. Como a princípio a idéia de mulheres fortes fisicamente desagradava os padrões da mulher delicada e frágil, a mulher não era incentivada a essas atividades físicas, então a padronização de seu corpo se deu por outros mecanismos: as indústrias da moda, da estética, da pseudo-medicina e da futilidade.
Os concursos de beleza e Miss-alguma-coisa que se disseminaram em meados do século passado foram definindo para as mulheres um corpo cada vez mais magro, e com padrões mais distantes do que é o corpo natural.
As passarelas das top models depois disso incentivaram um padrão doentio que resulta em toda uma geração de jovens anoréxicas, bulímicas e com sérios problemas de auto-estima.
Hoje, o mundo elitista da moda e a mídia burguesa, impõe como deve ser o corpo da mulher. E eles lucram com isso, e muito. São os remédios para emagrecer, as clínicas de beleza e cirurgias plásticas que fazem procedimentos absurdos e nada saudáveis, em que cada vez mais cedo as jovens interferem no seu corpo de forma invasiva.
As revistas voltadas para o público feminino são o cúmulo da futilidade, a noção de cuidado com o corpo ali colocada nada tem a ver com saúde, e sim com vaidade e futilidade. Se pegarmos desde uma revista voltada às adolescentes até as voltadas para as adultas, tudo gira em torno do corpo: cabelo assim-assado-alisado, maquiagem, roupas, acessórios; consideram a mulher como consumidora e a bombardeiam com propagandas de produtos para torná-la bonita, legal, interessante, sexy. Essas revistas estão dizendo o tempo todo: "mulher, você só terá amigos, namorados, marido, sucesso na vida se for bonita, e ser bonita é ser do jeito que nós definimos e vendemos que é".
Perto de casa tem uma banca de revistas onde todos os dias presto atenção nas capas e manchetes das revistas destinadas ao público feminino, elas não falam sobre economia, política, ciência, todas essas revistas falam sobre o corpo, e sempre têm uma dieta incrível: suco detox, suco roxo em jejum, paleodieta (essa é minha favorita, as pessoas vão caçar mamutes e comer carne podre?), perca 5kg em uma semana, 20kg em um mês, e assim por diante, toda edição eles descobrem alguma super-nova-dieta-maluca.
E as lojas de roupa? Comprar roupas é um inferno pra nós gordas porque há uma padronização absurda nos números das peças, e nos últimos anos ela encolheu. O tamanho P deveria ser chamado de infantil, o tamanho M só serve em adolescentes que ainda não tem seios, e o que eles chamam de G é o verdadeiro P. Resultado eu compro uma blusa GG e ela fica justa.
Ah, mas a indústria é esperta e vem criando um novo segmento de roupas que eles convencionaram chamar de plus size, porque querem lucrar com o nicho do mercado que são as gordas. Primeiro, plus size me passa a idéia de que sou um tamanho a mais, a mais que quem? A mais que o quê? Já me sinto um tamanho fora do padrão, um tamanho que as lojas convencionais não são obrigadas a atender (sim, já entrei em lojas que não possuem roupas tamanho G, "desculpe, senhora, só vendemos P e M").
Detalhe, as lojas destinadas ao público plus size são normalmente bem mais caras, porque se eu quero uma roupa que me sirva, eles tem que lucrar mais com isso (se alguém conhecer uma loja de roupas para tamanhos grandes barata, me indica!).
Meia calça eu já desisti de usar, todas rasgam, porque são feitas em tamanho U, único, unicamente para magras. Calcinha é uma desgraça, todas apertam, machucam, e sim, sou obrigada a comprar calcinha-gigante-nada-sexy porque prezo meu conforto. Meu pé não cresceu, mas já não posso comprar número 34 pra qualquer modelo porque a parte de cima dele é gordinha e muitos sapatos ficam apertados.
Só quero roupas confortáveis, que não apertem, não incomodem, não machuquem.
E por quê isso é tão importante? Porque eu não sou a única mulher que passa por essas situações, que podem parecer bobas, mas afetam e muito nossa auto-estima, nossa confiança. Se não me sinto bem comigo mesma, não consigo fazer mais nada.
É nesse sentido que a arte de Botero é um respiro de alívio no meu cotidiano, o artista conhecido pelo seu estilo de desenhar pessoas e até animais gordos, chegou inclusive a refazer obras clássicas acrescentando seu estilo: como um quadro com um Jesus gordo e outro em que repintou a Monalisa gorda. Ele fez até um Kama Sutra para gordos, com posições sexuais para casais gordos! Fernando Botero pintou quadros de mulheres gordas nuas, porque são bonitas. E se o Facebook não puder aceitar essas obras, aqui está meu site onde sempre postarei obras de arte de mulheres gordas nuas.
Aqui evito os eufemismos 'gordinha, cheinha', chamo pelo nome do que é e ponto, porque não considero o termo gorda ofensivo. Para mim é a constatação do meu peso. Talvez algumas pessoas me achem magra e digam que estou exagerando, só estou usando como referência como me sinto quando vou comprar roupas e como o padrão estético me vê. Já cheguei a pesar 40 kg a menos do que tenho hoje, tendo a mesma altura, mas depois dos vinte anos passei a engordar e me entender como gorda.
Se eu cresci ouvindo que: "pessoas gordas não são felizes", "mulheres gordas não casam", "ninguém vai querer te namorar com esse corpo", como posso combater tudo isso? Sendo feminista, e sabendo que não sou obrigada a seguir nenhum padrão estético. Posso ser magra se eu quiser, mas eu não quero (já quis e posso voltar a querer). Posso me depilar ou não, se eu quiser. Posso me vestir bem feminina e delicada com roupas cor-de-rosa, saia, e salto alto, ou posso me vestir masculinizada com cabelo curto, camisa-de-homem e sem maquiagem, e nada disso define se sou mais ou menos mulher, mais ou menos bonita.
Posso praticar atividade física e me alimentar bem porque me preocupo com minha saúde, não porque alguém está me impondo que meu corpo tem que ser assim. E posso ser saudável tendo um corpo grande. Experiência recente pessoal em que parei de fumar e comecei a praticar atividade física de forma regular, e descobri que antes eu não conseguia fazer alongamento não era por causa da gordura, mas do sedentarismo, hoje sendo gorda e fazendo atividade física sou muito mais saudável do que era quando era magérrima e sedentária fumante (já beirei a anorexia).
Mas o feminismo não adianta se ele for só para a minha emancipação pessoal, ele deve ser usado como ferramenta de luta para acabar com a opressão a todas as mulheres da classe trabalhadora cotidianamente submetidas a isso. É por isso que deve estar incorporado nas atitudes, no modo de ajudar as outras mulheres a se sentirem bem consigo mesmas, a combater o machismo nos homens, a criar espaços de debate e crítica, e de novas formas de lidar com tudo isso. De pressionar por mais mulheres gordas na mídia, na tv, no cinema, nas revistas, nos comerciais, na arte, e entender que não se trata só de conquistar espaço e visibilidade, e sim respeito.
Pra que todos as manhãs quando eu for dar bom-dia para a mulher gorda que está me olhando do outro lado do espelho eu consiga dizer: "você é bonita".